Saneamento Básico – O Filme (2007)

Um verdadeiro tapa de luva no rosto. Assim pode ser definido “Saneamento Básico – O Filme (2007)”. Em diálogos muito bem bolados, estão inseridas, sutilmente, críticas às políticas públicas e ao cinema em geral. O longa levanta também várias questões, como a necessidade da cultura na vida de quem não tem nem um esgoto adequado.

Produzido pela Casa de Cultura de Porto Alegre, o filme conta com um gaúcho na direção e roteiro: Jorge Furtado. O mesmo diretor do aclamado documentário “Ilha das Flores” e de longas-metragens como “O Homem que Copiava” aventura-se agora no universo da comédia política, com influências da “commedia dell’arte” (gênero teatral baseado no improviso). Para garantir o sucesso dessa nova empreitada, Furtado escalou atores talentosíssimos, que dão um verdadeiro show de interpretação. Destaque para outro gaúcho, Paulo José (Otaviano), coadjuvante na história, mas protagonista de cenas inesquecíveis como a que encerra o filme.

Tudo acontece na comunidade de Linha Cristal, onde após anos de sofrimento sem infra-estrutura para tratamento de esgoto, os cidadãos reúnem-se para pedir apoio monetário à subprefeitura para a realização de obras. Lá, Marina (Fernanda Torres) e seu marido, Joaquim (Wagner Moura), são informados de que as verbas estão esgotadas só restando R$ 10 mil para a realização de um vídeo de ficção dados pelo Governo Federal. Marina então decide fazer um vídeo qualquer para servir de fachada enquanto a construção é realizada.

Mesmo sem nem saber o que significa ficção, os personagens vão descobrindo como o fazer cinema é divertido e exige esforços, até em um filme caseiro como “O Monstro do Fosso”. Desde a construção do roteiro até a montagem, tudo vai sendo desvendado por essas pessoas comuns e inexperientes na sétima arte. À medida que o filme vai ganhando forma os problemas de relacionamento entre eles também vão se resolvendo e o experimento de criar vai se tornando mais importante do que a própria obra no fosso.

Cena com a impagável Silene Seagal:

Em um país onde metade da população não tem acesso ao saneamento básico, é extremamente complicado tratar do tema comparando à necessidade da cultura. Entretanto, Furtado conduz os acontecimentos com tamanha maestria que não há dúvidas de que os dois itens são igualmente importantes. Arte, cinema, e literatura, instigam a criatividade, a invenção e a paixão e como um ser humano pode viver sem essa trinca?

A comédia abre espaço para a emoção em certas partes da trama. Cenas impossíveis de esquecer, que são um suspiro poético do diretor, como quando Joaquim se despede de sua adorada motocicleta para vendê-la e contribuir com a finalização do filme, tudo por amor à esposa. Ou o simbólico ato dos senhores Otaviano e Antônio (Tonico Pereira) ouvindo a antiga canção no toca-fitas do carro.

A colocação da placa na obra pelo Prefeito e sua comitiva tem um simbolismo ainda mais forte, pois essa foi sua única participação em todo o processo de construção. Essa sutil cutucada em governantes que só servem para posar de bem-feitores é extremamente inteligente e faz com que o espectador reflita sobre o papel do governante e do cidadão na comunidade.

Gravado no Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, o longa ocupa um cenário pouco explorado pela filmografia nacional que é o interior gaúcho, com cidadezinhas charmosas em que o fogão a lenha não é só objeto de decoração. A trilha sonora, cantada grande parte em italiano, só endossa esse clima de aconchego que esses lugares têm. Um convite a quem não conhece a região.

“Saneamento Básico – O Filme” tem a receita completa para ser grande: piadas de bom gosto, cenas memoráveis, atores fabulosos, equipe técnica competente. Mas para sentir de verdade o gosto dele você precisa enxergá-lo com os olhos daqueles simples moradores de Linha Cristal, que, de repente, descobrem uma nova paixão: o cinema. Esse é o tempero secreto de um filme divertido e saboroso.

Foto retirada do site oficial do filme: http://www.saneamentobasicoofilme.com.br

P.S.: Tive a incrível oportunidade de estar presente na estreia do filme, aqui em Santa Maria, na Cesma (Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria). Jorge Furtado estava presente e comentou sobre como foi produzir o filme. É uma pena eu não ter levado gravador ou câmera na época para registrar (mas eu juro que é verdade). 🙂

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