O salva-vidas das máquinas (e dos pesquisadores)

Uma das coisas boas de ser jornalista (ou quase uma) é poder entrar nos lugares mais diferentes e conhecer todos os tipos de histórias e pessoas. Isso sempre me fascinou, nessa ingrata profissão.

Nem sempre as portas são abertas de boa vontade e nem sempre o que vemos lá dentro é agradável. Porque o que precisamos mostrar é o que de real tem por trás dessas portas.

E nunca, nunca, voltamos como os mesmos. Sempre terá aquela sensação de que o ar respirado ali entranhou-se no pulmão e ali vai ficar.

Surpresa boa foi conhecer essa figura. Uma energia incrível, um carisma raro. Quem dera ter mais Paulinos por aí. Fica o agradecimento por ter confiado que eu tentasse escrever uma parte de sua história.

O salva-vidas das máquinas (e dos pesquisadores)

Em sua sala no CCNE, ele trabalha entre circuitos e monitores. Créditos: Luciana Minuzzi.

É difícil encontrá-lo pelo campus. Ele é mais conhecido por quem trabalha nos laboratórios da UFSM. Nos corredores do CCNE, sua imagem está nas paredes, como homenageado nos quadros de formatura. O seu lugar é uma estreita salinha, abarrotada de circuitos, telas, ferramentas de todos os tipos. A sala de número 1322, no terceiro andar do prédio.

É só uma balança não medir com precisão e o telefone toca: “Paulino, me socorre!”. Não só no CCNE, mas no departamento de Química e até do curso de Veterinária, quando precisam de conserto para os aparelhos chamam Paulino Aguiar. Rotina que se repete há mais de 44 anos.

Antes de ser técnico de laboratório de Física, Paulino foi militar. A carreira durou pouco, pois havia um prédio da Universidade no caminho: “Um dia eu saí do quartel e passei em frente à Antiga Reitoria, na Floriano, e tinham inscrições para concurso. Não sabia o que fazer na época e resolvi arriscar. E passei”. Ele entrou como segurança, mas o conhecimento de Paulino em eletrônica o aproximou dos professores do curso de engenharia. Três meses depois de ser contratado, passou a ser técnico de laboratório.

Não eram esses os planos quando Paulino era um piá e morava em Cacequi. Correndo e brincando no ferrovelho do pai, queria ser maquinista. A vida trilhou outros caminhos, mas a admiração pelas máquinas se manteve. Com o trabalho na oficina de conserto de TVs e rádios, na cidade natal, o que era apenas curiosidade virou profissão.
Quem acha que o trabalho de Paulino é monótono, está enganado. Garantir a manutenção de equipamentos caros e fundamentais para o andamento de pesquisas é desafiador. “Quando começam a chegar muitos aparelhos, me sinto pressionado para terminar. Então é uma pressão, que me impulsiona a trabalhar, e é até divertido”. Por vezes, Paulino é solicitado a arrumar alguma máquina fora do horário de expediente. Afirma que atende a esses chamados com a mesma boa vontade, “faz parte”.

Pela janela da sala de trabalho, viu o HUSM crescer. Nos pés, sentiu o barro ser substituído pelo concreto. Alunos formaram-se e alguns viraram professores. Os prédios ganharam rachaduras, Paulino conquistou rugas. Mas assim como há 40 anos, se o tempo ajudar e o sol for brando, vai a pé para o trabalho. Ele avisa, sorrindo: “Olha, enquanto eu tiver produzindo, vou ficar. Agora, quando eu tiver me arrastando pelo corredor, eu vou embora. Porque não aceito ficar aqui sem produzir”.

Acadêmico:
Luciana Minuzzi – luminuzzi@gmail.com

Professora Responsável:
Luciana Mielniczuk – luciana.mielniczuk@gmail.com

Publicado em: http://w3.ufsm.br/infocampus/?p=1992

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