Uma viagem com o passageiro sombrio

Tonight's the night.

Missão: escrever de um dia para o outro uma recomendação de um seriado de TV que eu goste para o Infocampus. Tudo bem, uma atividade rotineira. O que dificulta é a parte do “que eu goste”. Não consegui pensar em outro nome além de Dexter. Depois de cinco temporadas, no entanto, é muito complicado conseguir colocar em palavras o meu sentimento de fã por esse seriado. A missão foi complicada, ainda mais porque assisti a season finale no mesmo dia, ainda estava digerindo. Missão aceita. Precisei pensar e relembrar todas as horas dedicadas a essa história envolvente. Espero que tenha feito jus ao meu sentimento e à altura do seriado. Chega de blábláblá, pegue seu passageiro sombrio pela mão, ajeite-se na cadeira e tire suas próprias conclusões.

O texto foi publicado originalmente aqui, em 16/12, mas deixo abaixo a versão estendida.

Uma viagem com o passageiro sombrio

Com a Internet, assistir séries de TV, comentar sobre elas em fóruns e participar de jogos online tornou-se um hábito, quase um vício. Os dependentes acompanham até mais de uma ao mesmo tempo, desenvolvem uma linguagem própria, entendem-se com os olhos, sabem que o outro está sofrendo pelo casal de protagonistas estar separado. A espera por um novo episódio é uma ansiedade sem fim com cliques constantes no F5 na expectativa por um trechinho divulgado na Internet. Esse dia de episódio novo é tão aguardado que torna até o domingo tedioso o mais querido da semana. Para mim e muita gente, domingo é um dos dias mais emocionantes porque é dia de Dexter.

Um dos textos mais brilhantes da televisão atual, Dexter conta a história de um personagem homônimo a série, interpretado magistralmente por Michael C. Hall, que inclusive participa de toda produção da série. O mundo bizarro e fascinante de Dexter foi criado por Jeff Lindsay, autor de “Darkly Dreaming Dexter”, livro utilizado como base para a primeira temporada da série, estreada em 2006. As próximas temporadas tiveram sua evolução paralela aos livros de Lindsay, com o personagem trilhando o caminho de uma personalidade mais sombria do que nas páginas dos livros. A série é exibida no país pelo canal FX Brasil e, recentemente, também pela RedeTV!.

Como o Dexter do desenho animado, este trabalha em um laboratório, mas diferente do desenho, é o laboratório de análise forense da polícia de Miami. Dexter ajuda a resolver os crimes baseado nos padrões deixados pelo sangue de modo muito eficaz e perfeccionista. Engana-se quem pensa ser esta mais uma série de policiais versus criminosos protagonizado por um cidadão acima de qualquer suspeita. Aproveitando os conhecimentos adquiridos na profissão e seguindo o código ensinado pelo pai e policial Harry, sem deixar pistas, meticulosamente, o analista de sangue mata criminosos que conseguiram escapar da justiça.

Harry percebeu as tendências homicidas de Dexter desde criança e resolveu refrear esses instintos através de um código para assegurar que ele nunca seja pego e só despache deste mundo os assassinos cruéis. O código moral pelo qual Dexter vive e segue rigidamente é chocante e até incompreensível para muitos e, por isso, ele vive esta vida dupla. Ao mesmo tempo, o marido dos sonhos, o irmão bom e caridoso e por outro, um assassino que premedita as mortes como quem planeja um trabalho. Além de ter todo o cuidado para não ir para a cadeia, ele precisa conviver em sociedade e com os companheiros de trabalho e a irmã sem que eles descubram sua outra identidade. Para os próximos (pelo menos parte deles), ele é educado, carismático, respeitável. Mas qual é a sua real face? Essas relações acabam complicando ambas as vidas do personagem e questionando quanto a sua real vontade: levar uma vida normal ou entregar-se ao passageiro sombrio? Esse passageiro é o nome dado a necessidade de o personagem extravasar sua escuridão nas mortes.

Como uma série com um serial killer como protagonista acumula cada vez mais prêmios e fãs apaixonados ao redor do mundo? Muito se deve ao roteiro primoroso e à atuação impecável do protagonista. O sentimento de impunidade ao presenciar casos e mais casos de bandidos caminhando livremente pelas ruas é um fidelizador a mais para a série. Claro que se houvesse um Dexter perambulando por aí, a reação natural não seria admiração, mas medo. Por isso, a ficção tem o fim de fazer com que as pessoas sonhem ou tenham suas fantasias realizadas pelo menos na tela.

Algumas séries têm muito sangue como ingrediente principal na sua receita de sucesso. Dexter não é assim. O código de Harry exige mortes limpas e rápidas. O sabor desta série é a discussão que ela evoca sobre a nossa moral e o lado mais escuro de todos. O nosso passageiro sombrio, o segredo, os medos, nos coloca em xeque. Mesmo que se trate sobre um psicopata frio e calculista, com dificuldades de relacionamento com outros humanos, Dexter é, ao mesmo tempo, um personagem intenso, extremo, que luta muito mais com os demônios internos do que com bandidos e também comum, poderia ser nosso vizinho.

Muito mais do que uma sucessão de mortes premeditadas por um justiceiro, mas uma jornada de crescimento pessoal e desenvolvimento. A série também nos auxilia a compreender que nada é tão simples como parece. Aliás, ele não é nem mocinho e nem bandido. É um anti-herói e dos mais adorados, apesar de ter tudo para ser o mai odiado. Para quem estiver preparado para uma viagem com o passageiro sombrio, é só ligar a TV e deixar-se envolver com a narrativa. Logo seus domingos ou o dia escolhido para assistir Dexter será um dia com muito mais emoção.

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