Profissão paisagista

Bom é ficar no meio das plantas. O pé na terra. Os insetos pousam despreocupados em uma pedrinha do seu lado. Ainda bem que tenho tudo isso ao meu alcance, aqui no pátio de casa. Tem muita gente que mal tem uma samambaia em casa e, muito difícil, quem não sinta falta de um pouco de verde para alegrar os olhos e o coração. Um dos responsáveis por incluir um pouco de natureza no cotidiano das grandes cidades é o paisagista. Quando escolhi esse tema para a matéria abaixo, mal tinha ideia da importância da profissão. Acreditava ser restrita aos projetos faraônicos e grandes mansões, mas agora penso bem diferente.

Importante lembrar que a inspiração para o texto veio de várias fontes. Além do meu próprio pátio, a minha mãe, a jardineira daqui, lê muitas revistas sobre paisagismo. A minha amiga Jane, entrevistada na matéria, também foi de grande ajuda e inspiração. Obrigada, meninas!

O texto foi publicado originalmente aqui. Mais fotos das estufas e arredores do Curso de Paisagismo da UFSM aqui.

Ser paisagista requer formação multidisciplinar

  • 17 novembro 2010

Da experiência com o feijão no algodão até as brincadeiras na areia da pracinha de brinquedos, as crianças são estimuladas a estar em contato com a natureza. O tempo passa e as atribulações do dia-a-dia afastam os jovens e adultos da convivência com árvores e plantas e a cor cinza das grandes cidades acaba sendo, por vezes, a paisagem mais comum. Existe uma profissão voltada a mudar esse padrão e incluir um pouco de verde no cotidiano: a de paisagista. Mesmo tendo suas origens nas culturas antigas, da Pérsia e Egito à Grécia e Roma, no Brasil há apenas um curso de graduação em Composição Paisagística, na Faculdade de Belas Artes da UFRJ.

São os cursos técnicos e de curta duração que dão as bases para a profissão, como o curso Técnico em Paisagismo da UFSM. Quem escolhe o paisagismo como profissão pode trabalhar com projetos de paisagens naturais e urbanas, ou seja, projetar jardins públicos ou privados, praças, parques, espaços de lazer e recreação, sempre visando a preservação do ambiente natural e a integração com o as edificações. Mas não só isso, como explica o professor Marcelo Antônio Rodrigues, do curso Técnico em Paisagismo, “paisagismo é a arte, a ciência e a técnica de transformar o ambiente onde o homem está, fazer com que o homem seja inserido na natureza e para melhorar o bem-estar”. Também professora do curso, Ísis Portolan dos Santos, completa: “É a integração do meio ambiente, do ser humano e das construções”.

No curso oferecido pela UFSM, o aluno aprende sobre solos, irrigação, drenagem, defesa fitossanitária, produção e supervisão de flores, entre outros assuntos, explica o professor do curso, Leopoldo Witeck Neto. Por ter um campo de atuação muito vasto e a possibilidade de trabalhar com profissionais de outras áreas, o paisagista precisa de formação multidisciplinar, que engloba noções de Agronomia, Engenharia Florestal e Arquitetura e Urbanismo. Os próprios professores do curso vêm dessas áreas. Rodrigues é engenheiro agrônomo, Ísis é arquiteta e Witeck, formado em engenharia florestal.

“A Arquitetura contribui no paisagismo na concepção do espaço enquanto forma, relação do homem com esse espaço, harmonia de cores, de formas, de volumes que seja agradável para o ser humano”, afirma Ísis. Em um projeto paisagístico, a princípio, o arquiteto define os pisos, mas ele não especifica a espécie de plantas, só diz o tamanho e cor que necessita. O agrônomo especifica essas espécies, diz o que está comercialmente disponível, mas não pode dispor no espaço. O engenheiro florestal sabe como plantá-las, o espaçamento entre elas, o manejo, o trato, a relação do meio ambiente com a espécie. O paisagista entra com a visão global, artística, de projeto e muita sensibilidade.

Projeto da Avenida Roraima foi realizado pelos estudantes do curso. Créditos: Luciana Minuzzi.

Como o curso é pós-médio, muitos alunos são recém saídos do segundo grau, mas também há profissionais que já trabalham com paisagismo e querem qualificar-se. Muitos alunos também eram praticantes de jardinagem e resolveram cursar o técnico para se aprimorar, mas é preciso entender a distinção entre as duas áreas: “A jardinagem é mais básica, quase empírica, por hobby. O paisagismo tem a teoria, ele vai saber por que plantar aquela determinada planta, como ela vai se desenvolver, qual a melhor adubação”, explica Rodrigues.

Além da confusão com a jardinagem, também existe a ideia de que o paisagismo é restrito às elites. O que é errôneo segundo os professores. “A função principal do paisagismo é melhorar a vida de qualquer ser humano, independente do nível social ou econômico. Essa vinculação do paisagismo como sendo de elites vem de que muitas espécies de jardim têm custo muito alto, às vezes, mas elevado que o custo da própria casa em que se está o implantando”, explica Ísis. O professor Rodrigues adiciona: “Um gramado bem cuidado, com poucas palmeiras, já é paisagismo, não é só a execução de obras faraônicas”.

O lado social do paisagismo mostra-se em um dos seus focos principais que são as obras públicas, como parques e praças. “Esses lugares cumprem um papel muito importante na cidade, de integração e convivência das pessoas. É um espaço de lazer, de comunhão, de esportes, descansar ou apenas contemplar o verde. Esses espaços são previstos pela legislação, mas muitas vezes não são feitos”, salienta a professora Ísis.

Muitos dos frutos dos dois anos de funcionamento do paisagismo já podem ser vistos nos canteiros e lugares de convivência da universidade. O embelezamento da Avenida Roraima foi o primeiro projeto a ser implantado. As mudas usadas nesse e nos outros projetos do curso são produzidas pelos alunos nas estufas do curso. Alguns dos outros trabalhos em andamento estão no pátio interno da Biblioteca Central, no espaço de convivência do Centro de Educação, na Creche Ipê Amarelo, para o Parque de Eventos, na Hípica, em um laboratório de Engenharia Florestal, no Programa de Ação Social.

Conforme os professores do curso, a sustentabilidade é item sempre trabalhado nos projetos. As estufas em que são produzidas as mudas das plantas têm um sistema de recolhimento da água da chuva. Existe um projeto em implantação com o Colégio Técnico Industrial (CTISM) para a iluminação com energia solar para jardins. O resgate de espécies nativas com potencial ornamental é muito valorizado. “Muitas estão em risco de extinção, o seu hábitat está muito degradado, seja pela atividade agropecuária, mineração, abertura de estradas. Ao longo do curso, resgatamos essas espécies e cultivamos na nossa coleção. A ideia é fazer com que o aluno perceba que esses padrões podem ser adotados nos projetos paisagísticos com êxito, porque elas estão aclimatadas. Tem um viés preservacionista importante”, relata o professor Witeck.

Para encontrar essas plantas nativas, são organizadas expedições de coleta e observação. Em uma dessas ocasiões, Witeck fez uma nova descoberta para a ciência, a orquídea Cyrtopodium witeckii. Essas e outras conquistas do curso Técnico em Paisagismo são importantes para fortalecer o reconhecimento do paisagismo. Para a aluna do segundo semestre do curso, Jane Zofoli: “é incrível poder dar vida a um espaço, misturar cores, formas, fazer as pessoas sentirem prazer em estar ali”.

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