Iê-iê-iê da Quarta Colônia

Para quem não conhece o Rio Grande do Sul, é preciso explicar alguns pontos antes da leitura do texto abaixo. As cidades não são muito grandes aqui, a maioria é pequena, e nem por isso, menos charmosa que as grandes metrópoles. Existe uma região que reúne nove dessas cidadezinhas e que recebeu o nome de Quarta Colônia. São turísticas, de muitas belezas naturais e seguem o modelo de prefeitura-igreja-praça de todas as cidades pequenas. Em algumas, as festas são bem expressivas e toda cidade se mobiliza pra levantar a poeira do salão. Quando escrevia para o Caderno Quarta Colônia, encartado no Diário de Santa Maria, pude conversar com um músico que nos anos 70 animava os bailinhos. A história está aí, mas com certeza, é só uma ínfima parte. O resto ficou na memória de quem muito arrastou pé nos salões de chão de tábua.

Egídio e eu.

Iê-iê-iê da Quarta Colônia

Quem vê o bancário Egídio Koltermann trabalhando de terno não imagina que há um tempo o uniforme dele era a calça boca de sino. Koltermann era o baixista da banda Angel Som, sucesso nos bailes do fim dos anos 60 e início dos 70, na Quarta Colônia e região. Paulo Gehrke no teclado, Edson Muller na guitarra e no ritmo, José Ibanes Nunes na guitarra solo, Tupinambá na bateria, Sérgio no trompete e Egon no saxofone completavam a formação. Integrante da banda da Escola Nossa Senhora do Calvário, o restinguense Koltermann, com apenas 14 anos, em 68, foi convidado para se unir ao conjunto Os Estranhos, que depois mudou para Analfa Som, e, mais tarde para Angel Som, em 1970.

A banda não tinha severas restrições quanto ao estilo musical que seria tocado. “O nosso cartaz na época dizia ‘Angel Som, conjunto com sons internacionais, nacionais e regionalizados’”, conta Koltermann, que além do baixo, tocava trompete e violão. The Fevers, Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps faziam parte do repertório do conjunto, sem deixar de fora a música tradicional do interior, tudo dependia do freguês. Quem era realmente severo com o grupo e os músicos em geral era a Ditadura Militar, que na época, exigia carteira profissional de músico para quem quisesse exercer a profissão.

Mesmo tendo fama, os músicos precisavam se esforçar muito. Carregavam os próprios instrumentos, tocavam 5 horas ininterruptas, não tinham um veículo próprio para se locomover. No início era uma Kombi emprestada, que precisava ser empurrada de vez em quando. Uma empresa deu uma mãozinha e um ônibus começou a ser usado. Foi um melhor modo de conservar os instrumentos, bem modernos em comparação a aparelhagem comum da época. A recompensa de toda essa maratona era percebida em sutilezas, como conta Koltermann: “Quando a gente voltava dos bailes e pegava o ônibus para Santa Maria para estudar, várias vezes as pessoas saiam assobiando uma de nossas músicas características”.

“São ciclos e o conjunto não era o nosso foco principal, a maioria era estudante universitário”, comenta Koltermann sobre o fim da Angel Som. Os músicos se dissiparam, mas o nome da banda foi vendido e ainda continua sendo usado. Hoje Koltermann tem uma grande coleção de LPs, EPs e CDs com as músicas que gosta e é ouvindo que mantém viva a música. O baixista reside em Santa Maria, atualmente, e sempre que percorre os caminhos da Quarta Colônia não esquece cada lugar em que já tocou com a Angel Som. O sentimento em relação à banda é definido por Koltermann em saudade e carinho. O ritmo permanece na memória dos seus integrantes e na batida do coração dos tantos casais, que dançaram colados, alimentando a paixão ao compasso da Angel Som.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s