Pare e observe o passarinho

Capa divertida de uma edição atual da Ciência Hoje das Crianças.

Cresci lendo Ciência Hoje das Crianças. Tinham matérias divertidas, de leitura instigante, experiências e brincadeiras. Fora os desenhos bem louquinhos. Tudo como criança gosta. Isso e a boa criação da minha avó resultaram em uma paixão por ciências e uma vontade de largar tudo e viver do laboratório para o bosque, pesquisando por anos a mesma espécie. Mas as letras estavam no meu caminho, não tem jeito. A vantagem é poder conhecer pesquisas sobre tudo um pouco e poder conhecer o habitat, não das espécies, mas do cientista.

Para o Infocampus, conheci o pessoal do Clube de Observadores de Aves de Santa Maria. A pena (nenhum trocadilho aqui) é que não pude acompanhá-los em uma saída de campo, porque as chuvas atrapalharam. Senti falta de poder descrever como é estar lá, perto, observando o bichinho. Tudo bem, não pude ter a experiência antes da reportagem, mas as atividades são abertas para quem quiser participar. Por enquanto, vou observando os beija-flores aqui no meu quintal. Eles adoram hibiscos.

Você pode ler aqui, ou abaixo:

ALÉM DE CIÊNCIA, É ESPORTE, LAZER E ARTE

“Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra”.

O trecho marca o primeiro registro de observações sobre aves no território brasileiro, contido na carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 28 de abril de 1500. A data hoje marca o dia do observador de aves, atividade secular que possui adeptos na UFSM. Alunos e professores da Universidade foram responsáveis pela fundação do Clube de Observadores de Aves de Santa Maria (COA-SM), em novembro de 1991, incentivados por um curso ministrado pelo biólogo da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, Flávio Silva.

A atividade ainda é recente no Brasil, mas iniciou no século XVIII na Europa. Segundo informações do COA-SM, existem em torno de 15 mil observadores de aves no Brasil. Os Estados Unidos tem cerca de 70 milhões, porém eles incluem na conta os bird feeders, pessoas que oferecem comida às aves. Se fossem contabilizados também os bird feeders no Brasil, a soma ultrapassaria um milhão. A primeira cidade no País a ter um COA foi Porto Alegre, na década de 1970, com o incentivo de William Beltonornitólogo estadunidense responsável por catalogar grande parte da vida aviária na região sul. As observações e as mais de mil gravações de cantos feitas pelo estudioso resultaram em material difundido em instituições de pesquisa no mundo inteiro.

Desde os pesados gravadores usados por Belton, até as câmeras fotográficas semi-profissionais, a técnica de observação mudou. A participante do COA-SM, Michele Brodt, bióloga e pós-graduanda em Biodiversidade Animal na UFSM, avalia que com equipamentos mais leves e baratos, ficou mais acessível praticar a observação. O COA-SM é formado, em grande parte, por profissionais que, como Michele, já trabalham na área. Porém o voo, o colorido e o canto das aves atraem pessoas de diferentes profissões.

Tangará fotografado em uma das saídas do grupo no Morro do Elefante, em Santa Maria. Créditos: Ronai Rocha.

O professor Everton Behr passa, há 20 anos, alguns de seus fins-de-semana com os olhos nas lentes do binóculo. Ele foi o primeiro diretor do COA-SM e hoje, além de fazer parte do Clube, ensina no curso de Engenharia Florestal e na pós-graduação em Biodiversidade Animal da UFSM, e também na Unidade Descentralizada de Educação Superior da UFSM (UDESSM), em Silveira Martins. Com tanta experiência, Everton avalia: “Boa parte dos ornitólogos, observadores profissionais de aves, iniciaram na observação e agora trabalham na área. Hoje percebo três tipos no Clube: os que vão apenas pelo lazer, os que vão pela fotografia e os que querem seguir na pesquisa”.

As saídas a campo são feitas, primeiramente, dividindo o grupo, para que uma grande movimentação não espante as aves. Quando uma espécie é avistada, um participante mais experiente comenta sobre algumas características da ave que a diferencia das demais, priorizando seus aspectos físicos. Os guias, pequenos livros com desenhos ou fotos das aves de determinado local e informações para a identificação das mesmas, são preciosos, principalmente para iniciantes. “Um dos nossos projetos é montar um guia com as aves do campus”, comenta Everton.

De nada adianta os melhores binóculos e lunetas se não houver paciência. Às vezes, é preciso ficar por muito tempo imóvel e à mercê de insetos, vegetação com espinhos e terras irregulares. As recompensas vêm na forma de descobertas, como a de Everton, que redescobriu “uma espécie, o papa-moscas-canela, que não era visto no Rio Grande do Sul desde 1934”.

Os vôos do COA

O COA tem ultrapassado Santa Maria e levado o trabalho para a região. “A nossa última saída foi em Val Feltrina, localidade de Silveira Martins. Partiu da própria comunidade o convite para o grupo fazer uma integração com as aves”, diz Everton. Os planos vão além, “a ideia é desenvolver a observação de aves na região para a geração de emprego”.

Existe um projeto de extensão chamado Olha o Passarinho, do qual participa Michele. Esse projeto não faz parte das atividades do COA, mas tem o objetivo similar de levar a observação de aves para quem ainda não conhece, no caso, as crianças. Saem os bodoques, entram os binóculos: “Na Quarta Colônia, existe ainda a cultura do bodoque. Queremos mostrar que observar é uma opção de lazer”, conta Michele. “Para mim, a melhor prática de educação ambiental é conhecer para poder preservar”, completa.

Da esquerda para a direita: Mariane Boshholn, Michele Brodt e Everton Behr, integrantes do COA-SM. Créditos: Cristiano Magrini.

A observação de aves é uma forma de interação com a natureza, não só a que está distante, nas matas, mas, também a que está em meio aos prédios das cidades e além de promover a educação ambiental e o turismo ecológico, é apaixonante para os praticantes. Um exemplo é o da acadêmica do curso de Biologia, Mariane Boshholn, integrante do COA-SM. “Aprendi a gostar de aves indo a campo com a Michele. Quero seguir como observadora e ornitóloga”. Mariane dá continuidade aos trabalhos sobre a dieta e o comportamento do Tangará, iniciados pelo diretor do COA-SM, Franchesco Della Flora, e por Michele. Quem pratica a observação conhece novos lugares, exercita e relaxa a mente, foge da rotina e inspira-se para as artes, como fotografia, desenho e pintura. “Meus alunos dizem que passaram a prestar mais atenção nos bichos, na natureza, em tudo que nos cerca”, relata Everton.

As atividades do Clube de Observadores de Pássaros são gratuitas e abertas ao público em geral. “O COA-SM tem ornitólogos, mas não é apenas para esses profissionais”, explica Everton, convidando todos os interessados. São realizados encontros mensais, geralmente no primeiro sábado de cada mês, com cursos e palestras, e saídas quinzenais a campo em Santa Maria e região.

Repórter:
Luciana Minuzzi – luminuzzi@gmail.com

Revisor:
Guilherme Gehres – gehres.guilherme@gmail.com

Editor de Imagens:
Bianca Riet Villanova – biancariet@gmail.com

Editor-assistente:
Bibiano Girard – bibianogirard@gmail.com

Editor:
Felipe Severo – felipesiqueirasevero@gmail.com

Professora Responsável:
Luciana Mielniczuk – luciana.mielniczuk@gmail.com

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