Do cárcere para a sala de aula

Esportivo, de moda, literário, new journalism, existem vários estilos de jornalismo. Gosto mesmo do jornalismo de adrenalina, o que lhe mostra realidades diferentes da sua e lhe permite emergir nelas. Viajei nas histórias tão bem ilustradas pelo perfilado do texto abaixo. Foi uma dura e difícil viagem em um mundo onde a liberdade é o desejo geral. Depois da conversa, caminhei, caminhei, caminhei. Não conseguia parar de pensar na minha realidade e na dos detentos, dos carcereiros, do diretor da cadeia, dos universitários. Penso menos nisso agora, mas o carimbo da viagem está impresso na pele para eu não esquecer.

Você pode ler aqui http://w3.ufsm.br/infocampus/?p=4482, ou abaixo:

 

A VIDA INTRA E EXTRAMUROS

Descentralizado, em modalidade seriada, com menos dias de duração, o Vestibular da UFSM deste ano teve mudanças. Entre os 38.380 inscritos, 22.733 fizeram as provas em 21 cidades diferentes, inclusive fora do Rio Grande do Sul. Os 15.647 restantes prestaram vestibular em cerca de 25 pontos de Santa Maria. Na lista dos locais de prova, um novo nome chamava a atenção: o Presídio Regional.

Pela primeira vez no Rio Grande do Sul, presos concorreram a uma vaga em instituição pública de ensino superior, de acordo com a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). O fato inédito teve impacto na história do Estado e na vida de José*, um dos detentos aprovados no concurso. Lá, em uma das salas disponibilizadas para os testes, ele suava frio diante do que tinha em mãos: um simples papel que poderia mudar tanto sua rotina. Para ele e para os outros 17 detentos que realizaram a prova, os sacos lacrados traziam mais a chance de um recomeço através da reinserção.

Aquela prova mudou mesmo o cotidiano. José* foi aprovado no curso de Tecnologia em Redes de Computadores, e por isso, teve o pedido de progressão para o regime semi-aberto avaliado e aceito. Depois de resolver essa questão, com passagens de ônibus e material na mão, ele iniciou o curso e uma nova fase, com a volta para o convívio no mundo extramuros. A liberdade parcial do semi-aberto veio depois de três anos e meio no regime fechado. “A gente sai desestruturado. Imagina quatro anos perdidos lá dentro, num lugar sem Internet, sem computador, sem contato nenhum com o mundo exterior”.

Ilustração baseada em personagem fictício. Ilustração: Lisiane Dutra Lopes.

O dia agora é dividido em dois mundos, como percebe José*: “À noite, eu volto praquele mundinho interno, um subterrâneo, isolado”. Pela manhã, ele tem aulas no campus. No início da tarde, leva o filho para a escola. Em meio ao cotidiano agitado, é preciso ter tempo para os estudos. Às 18h se apresenta no presídio, onde só pode ler no papel, o que prejudica os exercícios no computador. “As dificuldades vão ter, mas tem que ter força de vontade e persistência. A gente fica ansioso pra resolver tudo de uma vez só, mas uma coisa que aprendi lá é que preciso ter paciência”.

Para se integrar de novo ao mundo extramuros, José* conta com o apoio familiar, dos amigos e da comunidade acadêmica. Nem todos os colegas sabem da sua situação, por isso, seu nome não foi usado nesse perfil. “Quero que me conheçam como pessoa, antes de saberem e me julgarem pela minha condição. Os professores entendem a minha situação e vão me dar prazos extras, mas nada diferente dos outros alunos. Se me diferenciarem vou me sentir mal”.

“Agora, com a UFSM, a rotina é boa.”

Uma das 3,5 mil vagas oferecidas no vestibular 2011 foi preenchida por José*. Os outros seis detentos também aprovados não estão cursando, por motivos pessoais, burocráticos, monetários. Mesmo que apenas José* esteja na UFSM agora, nesse ano, os detentos puderam ver seus nomes na página de Educação do jornal e não apenas na Policial. Esse fato encoraja os presos que desejam estudar, como o próprio José* relata ao ver o entusiasmo e curiosidade dos apenados ao perguntar sobre suas aulas.

Para o nome de José* e dos outros apenados estarem no listão, foi preciso a orientação e dedicação das professoras do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos e Cultura Popular Julieta Balestro (NEEJACP). Com sede na casa prisional, o NEEJACP oferece conteúdos da educação básica e incentiva os alunos que ainda não tem certificados de conclusão do ensino médio ou fundamental a participarem de provas como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Na edição de 2010 do Enem, em Santa Maria, foram 47 homens e mulheres participantes. Com apoio da NEEJACP, o Práxis Coletivo de Educação Popular, projeto da UFSM, já promoveu aulas e doou material didático.

O NEEJACP mostrou para José* uma possibilidade e a família deu o suporte necessário. Ele conta que a expressão da mãe nas visitas na época do regime fechado era de tristeza, e hoje, de orgulho, sentimento compartilhado pelo filho de oito anos: “Ele foi comigo fazer a minha matrícula, quer conhecer o Planetário e queria ir à aula comigo”.

Com esse apoio, José* batalha por uma bolsa de estudos ou estágio dentro da universidade. “A importância da UFSM é a porta que ela está abrindo pra não reincidir no crime, porque eu sei que as tentações vão vir”. Estudar, para o apenado, não é uma forma de pagar por algo errado que fez, mas, sim, é algo para o crescimento pessoal. “O estudo vem para mostrar teu interesse e o quanto tu quer mudar”.

Essa vontade de estudar cresceu dentro da cadeia: “Nesse tempo que passei preso, aconteceu muita coisa na minha vida. Isso me deu um estalo para sair do crime. Lá [no presídio] tempo é o que mais tem para estudar”. O tempo no cárcere é diferente do tempo no lado de fora, conta José*. Antes de ser preso, o que mais gostava de fazer era conhecer novos lugares. A liberdade parcial deu a chance de tornar alguns sonhos concretos, e ele planeja um intercâmbio assim que puder viajar novamente quando receber a condicional, prevista para o fim de 2012. “É como nascer de novo. Tu começa engatinhando, quando vê tu já está caminhando. Quando pega a condicional, já está correndo”.

Repórter:
Luciana Minuzzi – luminuzzi@gmail.com
Revisor:
Guilherme Gehres – gehres.guilherme@gmail.com
Ilustração: Lisiane Dutra Lopes – lisiane.dutra.lopes@gmail.com 
Editora-assistente: 
Tiago Schmidt Miotto – tiagosmiotto@gmail.com
Editor: Liana de Vargas Nunes Coll – lianavncoll@gmail.com
Professora Responsável: Luciana Mielniczuk – luciana.mielniczuk@gmail.com

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