Uma análise de Clarice Starling

Olá, pessoal! 🙂

Para comemorar o post 50 e o primeiro de 2015, trago a análise de uma das minhas personagens favoritas. Sim, ela mesma. Clarice Starling, a agente do FBI que tem uma relação de quid pro quo com o Hannibal, o canibal.

Fiz a análise em 2009 para o Portal Cinema com Rapadura. Até comentei aqui no blog quando esta análise foi originalmente postada. Leia aqui. Na época, eu mantinha uma coluna em que os personagens eram dissecados. Sempre gostei de fazer essas observações sobre as pessoas que compõe as narrativas. Continuo fazendo isso sempre que posso durante as pesquisas das graduações de jornalismo e produção editorial.

O texto era acompanhado por uma cartinha no estilo Super Trunfo. Era muito, muito, muito legal. 😀

Já postei outra análise aqui no blog sobre o Dr. Brown, da trilogia De Volta para o Futuro. Leia aqui.

Espero que gostem. Se quiserem, enviem dicas de personagens e eu vou analisar. Sinto muita saudade dessa coluna. Boa leitura. 😀

Créditos: Rodrigo Oliveira.

Créditos: Rodrigo Oliveira.

“Sabe aquele personagem? Daquele filme? Aquele que o cabelo era meio assim… Tinha uma roupa preta… Como é mesmo o nome? É um dos meus preferidos, sabe?”

A Coluna R-Files remexeu os empoeirados arquivos do Cinema com Rapadura para relembrar os personagens mais marcantes e os não tão lembrados da história do cinema. De lambuja, as cartinhas R-Files são uma ótima maneira de colecionar os seus preferidos e jogar.

O R-Files (Rapadura Files ou Arquivos do Rapadura em bom português) não poderia iniciar com alguém diferente. Clarice Starling é uma das personagens que eu mais gosto entre tantos da sétima arte. Se você, como eu, tem um personagem que ama muito, se identifica ou admira, compartilhe, dê dicas de nomes para o próximo R-Files. Críticas são muito bem vindas.  Afinal, eu posso até ser quem escreve, mas as estrelas são eles, os personagens. E vocês, leitores, são quem vai indicar o próximo a estrelar a coluna.

A personagem

A Agente do FBI Clarice Starling ficou mais conhecida por sua conexão com o serial killer Hannibal Lecter. A firmeza de caráter e a vulnerabilidade da policial atraíram a mente perturbada do ex-psiquiatra. A relação entre esses protagonistas é extremamente dicotômica, assim como eles próprios: ela é corajosa e assustada, ele é refinado e canibal.

A história (Aviso: o texto abaixo contém revelações sobre o enredo dos filmes em que a personagem participa).

A pequena Clarice conviveu desde cedo com a morte e o crime. A mãe morreu quando ela era muito nova e seu pai, que era policial, faleceu em um confronto com bandidos. Órfã, ela foi morar com o primo da mãe e a esposa dele em um rancho, mas não por muito tempo. Na tentativa de salvar os carneiros que gritavam, pois seriam mortos, Clarice fugiu com um deles no meio da noite. O fazendeiro ficou irado e despachou a garota para um orfanato.

O tempo passou e Clarice tornou-se trainee do FBI. Subestimada por ser mulher, bonita, e de origens humildes, Clarice precisou de muita garra para provar que mereceu a vaga no FBI. Como uma de suas primeiras tarefas, seu mentor, John Crawford, pede que ela se encontre com Hannibal, “The Cannibal”, Lecter a fim de obter algumas informações sobre o caso de Buffalo Bill, um outro serial killer que retira parte da pele das vítimas.

Preocupada em salvar as vítimas do esfolador, Clarice cede aos jogos mentais operados pelo ex-psiquiatra Hannibal, e com sua ajuda encontra o bandido. Posteriormente, formada com louvor, ganhou fama pelo feito heróico. Enquanto Lecter desaparece, fugindo para o exterior. Clarice não o teme por saber que ele considera o mundo mais interessante com ela nele.

Após sete anos da fuga de Lecter, Clarice torna-se uma pessoa mais fria, dura e confiante. As ações da agente nem sempre são bem recebidas e ela passa por uma fase difícil no trabalho. Enquanto isso, Lecter vive como curador de uma biblioteca em Florença sem saber que um ex-paciente e vítima, Mason Verger, trama uma cruel vingança usando Clarice como chamariz. Com a cabeça a prêmio, Lecter desperta o interesse do ambicioso Inspetor Pazzi. É dada a largada da caçada ao canibal.

Pazzi não tem sucesso em entregar Lecter (que está sempre um passo à frente dos inimigos), e é morto: “Faço da minha casa a minha própria forca”. O desfigurado Verger é também morto em seu próprio plano de vingança. Em uma união antropofágica, Clarice e Hannibal têm seu último encontro. A tensão é sexualmente carnal. Ela une-se não intencionalmente a ele e Lecter escapa outra vez. O destino de Clarice não é possível de deduzir, mas é possível que os carneiros continuem gritando.

Créditos: Rodrigo Oliveira.

Créditos: Rodrigo Oliveira.

Os filmes

Atrizes diferentes atuando em filmes com produções idem e uma lacuna de 10 anos entre eles. Isso, com certeza, modifica muito a essência inicial da personagem. Jodie Foster foi agraciada com o papel da primeira Clarice a aparecer nas telonas em “Silêncio dos Inocentes”. O filme é muito aclamado e entrou para o hall dos clássicos recebendo 5 estatuetas do Oscar: Melhor Filme, Melhor Atriz (Jodie Foster), Melhor Ator (Anthony Hopkins), Melhor Diretor (Jonathan Demme), e Melhor Roteiro Adaptado (Ted Tally). Já Julianne Moore interpretou em outras circunstâncias, produzindo uma Clarice muito díspar da original, o que gerou críticas ferozes à atriz. Acredito que, dentro de cada proposta, as duas foram ótimas. Vamos checar as diferenças:

Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991)

Na minha opinião, a melhor Clarice: verdadeira, esforçada, perspicaz e a sua relação com Hannibal é mais pura e visceral. A cumplicidade entre os dois é o foco, e, diferente de “Hannibal”, ela não o está caçando, pois precisa dos seus conhecimentos. A relação de discípula e mestre é bem representada em seu último encontro em uma simbologia com a obra de Michelangelo, “A Criação do Mundo”. O toque dele deu a inspiração necessária a ela.

Já no primeiro encontro, Lecter instiga Clarice criticando seu modo simplório de ser e vestir. Ela teve a coragem, mesmo aparentemente nervosa, de encará-lo e dizer que ele deve se auto-analisar. Essa audácia, misturada à vulnerabilidade aparente, atraiu a atenção do psicopata que usa o seu “quid pro quo” para descobrir mais sobre essa garota tão forte e cercada de demônios pessoais.

Convivendo em meio a homens machistas e indelicados, ela vê em Lecter um verdadeiro cavalheiro, capaz das piores atrocidades, mas de modo refinado. Ela começa a entender seu modo de agir, tão diferente de outros serial killers. O senso de justiça de Clarice, explicado pelo passado triste, faz com que ela ignore os conselhos de Crawford, seu mentor no FBI, e ceda aos jogos mentais do ex-psiquiatra a fim de salvar as vítimas do assassino Buffalo Bill.

Enquanto o olhar de Lecter é penetrante e incisivo, o de Clarice tem compaixão e verdade. Por transmitir tão bem o que sente, essa personagem se torna tão humana para o espectador. Ela não é uma super-heroína, é uma policial extremamente dedicada ao trabalho e uma mulher simples, bonita e forte, que precisa provar seu talento em um meio dominado pelos homens.

Hannibal (Hannibal, 2001)

Já não existe mais tanta repressão, sensibilidade e inexperiência em Clarice, quem vemos agora é a policial dura, sensual e um tanto quanto estereotipada. A relação com Lecter não é mais espiritual, é carnal. Ela está o caçando, não precisa mais de sua sabedoria.

O filme gira em torno dessa caçada e eventuais mortes sangrentas. Clarice já não é mais a estudante do FBI, e pela fama conquista com o caso de Buffalo Bill, a agente especial detém a atenção da mídia. A responsabilidade de estar nesse cargo é muito grande e a pressão também. “Fui eleita pelo Guiness Book como a agente do FBI que mais matou em campo”, ela diz. Dividida entre ações mal-sucedidas e a pressão da mídia, Clarice ainda precisou lidar com o fantasma de Hannibal Lecter e a angústia por ainda não o ter encontrado.

Como passou quase todo tempo investigando, ela compreendeu o modus operanti de Lecter e saiu a sua busca. Nessa ocasião, o contato físico entre eles é muito maior. Lecter demonstrou-se mais ousado e Clarice mais confiante. Parece que, sem querer, Clarice compartilhou com Lecter e o ajudou em várias situações, como em uma cumplicidade de parceiros de crime. Foi por esse motivo inclusive, que Jodie Foster não aceitou o papel da agente. O criador de Clarice, o escritor Thomas Harris, deu à personagem um rumo inesperado e o diretor Ridley Scott acrescentou um alto teor de violência ao filme. Sobrou para Julianne Moore participar dessa seqüência que gerou grande renda nas bilheterias, mas, infelizmente, atribuiu um destino revoltante para uma grande personagem do cinema.

 

Descrição das características das cartinhas R-files (versão resumida):

Aparência: Essa característica diz respeito a quanto o visual do personagem é agradável.

Carisma: Mede o nível de simpatia natural do personagem.

Carma: Define o nível de benevolência do personagem, se ele é bom ou mau.

Humor: Classifica o personagem em otimista, feliz, alegre e bem-humorado ou o contrário.

Inteligência: Mostra o nível de conhecimento empírico e científico do personagem.

Moral: Essa característica é definida pelo apego e respeito do personagem às leis e regras da sociedade.

Violência: Qualifica o personagem em níveis de pacifismo ou agressividade.

Observações: Definimos essas categorias para poder classificar de maneira mais profunda os personagens. Um personagem bonito pode ser malvado e não carismático, mas pode seguir às leis e regras para fazer o mal (um advogado, por exemplo). Bem como pode ser pacifista, bem-humorado e inteligente.

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Uma resposta para “Uma análise de Clarice Starling

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