Uma análise de Daniel Plainview

Imagem: divulgação.

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Olá, pessoal!

Como vocês pediram, está aí mais um personagem analisado na antiga coluna R-Files. Já trouxe aqui no blog a agente do FBI Clarice Starling e o Dr. Brown, da trilogia De Volta para o Futuro.

Leia aqui a análise de Clarice Starling. | Leia aqui a análise de Doc Brown.

Os textos foram publicados em 2009 para o Portal Cinema com Rapadura. Até comentei aqui no blog quando esta análise foi originalmente postada. Leia aqui. Na época, eu mantinha uma coluna em que os personagens eram dissecados. Sempre gostei de fazer essas observações sobre as pessoas que compõe as narrativas. Continuo fazendo isso sempre que posso durante as pesquisas das graduações de jornalismo e produção editorial.

O texto era acompanhado por uma cartinha no estilo Super Trunfo. Era muito, muito, muito legal. 😀

Espero que gostem. Se quiserem, enviem dicas de personagens e eu vou analisar. Sinto muita saudade dessa coluna. Boa leitura. 😀

Imagem: divulgação.

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#02 R-Files – Daniel Plainview

O personagem escolhido para esta quinzena foi sugerido pelos leitores: Leandro, Daniel e Rodrigo Herder. Obrigada e continuem sugerindo nomes, o seu personagem preferido pode aparecer aqui.

“Garanto, senhoras e senhores, não importa o que os outros prometam fazer, na hora da comparação não irão me superar.”

Daniel Plainview, em “Sangue Negro” (There Will Be Blood – 2007).

Aviso: o texto abaixo contém revelações (spoilers) sobre o enredo do filme em que o personagem participa.

DANIEL PLAINVIEW

Dotado de poderosa inteligência emocional e um vasto império de petróleo, Daniel Plainview é o retrato do empresário capitalista. Líder nato, ele usa de suas capacidades para obter o que quer (de modo lícito ou ilícito). Toda competitividade que ele emprega no trabalho é refletida nas relações pessoais e acaba dificultando seu relacionamento mesmo com os mais próximos, resultando em um distanciamento cada vez maior da sociedade. Mesmo tendo tudo que materialmente almejava, Daniel sente falta de algo que não se compra e não se encontra facilmente. Plainview é o triste retrato de um herói desconstruído.

Imagem: divulgação.

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A HISTÓRIA

Como não tinha um bom relacionamento com o pai, Plainview deixou sua casa em Fond du Lac, em Wisconsin, para explorar minérios no Kansas. Após trabalhar um tempo em uma mina de prata sozinho, Plainview começou a explorar petróleo em torno de 1902. No poço em que estava perfurando, um colega e pai solteiro morreu em um acidente e Plainview adotou seu bebê, chamado HW.

Passado alguns anos, HW já era uma criança e Daniel um empresário em ascendência. Seguindo a dica do desconhecido Paul Sunday, Daniel iniciou um grande projeto de extração de petróleo em uma cidadezinha chamada Little Boston. O irmão gêmeo de Paul, Eli, exigiu dinheiro a Daniel para a construção de sua Igreja, em troca do rancho dos Sunday. Plainview prometeu que ia pagar, mas não cumpriu a promessa.

Um acidente com gás em um dos poços afetou HW, que acabou ficando surdo. Desestabilizado, no momento em que Eli abordou-o agressivamente cobrando a sua dívida, Daniel espancou o pastor.

Plainview foi surpreendido quando Henry Brands apareceu dizendo ser seu meio irmão. Mesmo sendo desconfiado, depois de conferir algumas provas, Daniel se convenceu da autenticidade de Henry e o acolheu em sua casa. Na tentativa de chamar a atenção do pai, HW tentou incendiar a cama de Henry. Daniel despachou, envergonhado, HW para uma escola de surdos.

As terras de William Bandy, únicas que ainda não haviam sido compradas na região, eram indispensáveis e Daniel e Henry foram conversar com o proprietário a fim de comprá-las. Durante a viagem, Plainview relembrou fatos da infância com o irmão e descobriu que ele é um impostor que conheceu o irmão de Daniel e usou sua identidade depois de ele ter morrido de tuberculose.

No local onde estavam acampados, Plainview matou e enterrou o farsante. Ele foi chantageado por Willian Bandy, que deduziu o que aconteceu na noite anterior. Em troca de suas terras e seu silêncio, Bandy exigiu que Daniel fosse batizado na Igreja da Terceira Revelação pelo pastor Eli.

HW voltou do internato sabendo se comunicar através da linguagem de sinais com o seu professor. Eli foi embora fazer missões pelo país. Daniel ficou cada vez mais poderoso, rico e desequilibrado. HW casou-se com Mary Sunday, sem a presença do pai.

O tempo passou e Daniel vivia em uma bela mansão. O filho disse que ia para o México com a esposa e lá iniciaria sua própria empresa petrolífera. Durante a conversa, Plainview usou toda sua maldade e cinismo para maltratar e dispensar o filho, a quem chamou de bastardo.

Eli foi ao encontro de Plainview querendo dinheiro para se recuperar da Crise de 29. Uma série de humilhações foi proferida por Plainview que também agrediu fisicamente Eli. O pastor morreu. Seu mordomo foi até a sala onde os dois estavam e perguntou se estava tudo bem. Plainview ambiguamente respondeu: “Eu terminei”.

O FILME

O próprio diretor de “Sangue Negro”, Paul Thomas Anderson, foi quem adaptou a obra “Oil!” (1927) de Upton Sinclair para as telonas. Ao escrever o personagem Vern Roscoe, Sinclair se baseou no milionário irlandês Edward Laurence Doheny, que viveu entre 1856 e 1935. Daniel Day-Lewis foi responsável por dar vida a Daniel Plainview e o fez brilhantemente, pois o ator tem a sensibilidade necessária para demonstrar todas as nuances de Plainview sem parecer forçado. Mereceu todos os prêmios que conquistou pelo papel, inclusive o Oscar de Melhor Ator.

O filme é praticamente todo focado apenas na trajetória pessoal desse personagem. É como se tudo: iluminação, cenários, edição fosse combinado para fomentar sua personalidade. Quando conseguimos desgrudar os olhos de Plainview, podemos perceber outros grandes personagens, ter uma idéia de como era a vida nos poços de petróleo no início do século XX e como Doheny e outros empresários da época usavam o poder.

Os mais de 10 minutos de silêncio do início do filme já nos advertem que o que vem por aí não vai ser facilmente digerido. A aridez desértica, a lama e o petróleo ambientam o clima obscuro vivido por aqueles exploradores. A pesada trilha sonora, composta por Jonny Greenwood, da banda Radiohead, acentua o tom claustrofóbico e parece vir direto da mente de Plainview, traduzindo sua confusão interior.

Se você não for conquistado por “Sangue Negro” nesses primeiro minutos, vai ser difícil gostar. O ritmo lento é alternado por cenas de nenhum diálogo com cenas de conversas memoráveis, sem grandes reviravoltas. O filme é, acima de tudo, uma descoberta sobre a tomada da loucura em um ser humano, e isso acontece aos poucos. É necessário saber saborear cada nova pequena descoberta.

O PERSONAGEM

Pode-se dizer que Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um herói épico. Ele não tem grandes tropas para guerrear, mas, sim, uma grande batalha interna. A transformação pela qual ele passa ao longo do filme é perfeitamente bem construída, sendo sutil e impressionantemente real. De início, nascemos com o personagem das profundezas de uma mina, ficamos encantados com a sua determinação, força e até sua ambição é um tanto quanto charmosa.

Conforme seu poder vai sendo consolidado, acontecimentos além do controle de Plainview acabam maculando sua solidez de líder. Um de seus desafiantes, Eli Sunday (Paul Dano), o etéreo pastor, se revela aos olhos do espectador como um charlatão que gosta tanto de dinheiro e de poder quanto Plainview. Um verdadeiro duelo de religião versus dinheiro. Plainview acredita reconhecer o mal nas pessoas e ele enxerga o de Eli: egoísta, ganancioso, vaidoso, covarde, invejoso. Daniel pode ter seus pecados, mas ele não quer ser absolvido. Daniel não aceita nem que Deus seja superior a ele.

Daniel cede às exigências de Willian Bandy (Colton Woodward) e suporta as humilhações e a vingança de Eli, na cena em que é batizado, porque ele sabe que vai ganhar muito com isso. Ele nem se importa com o que as pessoas na Igreja poderão pensar, pois elas são só instrumentos para os fins que ele deseja. Aliás, todas as pessoas são desnecessárias a ele, como o próprio afirma.

Imagem: divulgação.

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A importância das pessoas é medida de acordo com o que ele ganha com elas. Essa máxima se estende aos laços afetivos também. HW (Dillon Freasier), seu filho adotivo, em uma visão superficial, serve como instrumento para sensibilizar as pessoas nas negociações de Daniel e, futuramente, como seu sucessor. Aprofundando a análise, HW é o discípulo perfeito por se interessar no trabalho do pai e demonstrar sinais de querer trilhar o mesmo caminho. No entanto, HW não possui a essência do pai, que Plainview julga, posteriormente, existir no suposto meio irmão Henry Brands (Kevin J. O’Connor).

Uma prova disso é o casamento de HW com Mary Sunday (Sydney McCallister), passo inicial para a formação de uma família. Plainview nem ao menos se interessa por alguma mulher ao longo da história, parecendo não querer construir laços afetivos. Tanto que a relação com HW é rompida agressivamente. HW não serve mais para ele, pois quer construir sua própria vida e não continuar a do pai. O que deixa Daniel irado, porque os “negócios da família” não serão continuados.

Uma outra contradição da relação dos dois é que Daniel defende o filho perante os empresários da Standard Oil, mas não procura aprender a se comunicar com ele. Isso tanto pode significar que ele é mesmo um homem rude demais para se preocupar com isso ou então ele só quer manter as aparências. Daniel realmente ama HW, mas de um modo bem peculiar.

Por terem um laço de sangue, Daniel projeta a esperança de encontrar a essência parecida com a dele no meio irmão. Pela frustração com a doença de HW, ele precisa de um outro acompanhante e confia o cargo a Henry. Isso é definitivo para a mudança de Plainview e a sua derrocada. É nessa parte que ele revela ser um personagem digno de um estudo mais aprofundado, pois ele compartilha seus sentimentos íntimos com Henry em um diálogo muito revelador sobre o seu caráter. Por essa conversa, é possível prever que Henry será assassinado por Plainview devido ao tamanho da decepção de não ter mais o irmão verdadeiro. Após matar Henry, Daniel lê o diário do irmão legítimo e chora por saber que ele está morto sem o ter conhecido.

Ao mesmo tempo em que parece louco, Plainview toma algumas atitudes louváveis como na festa de inauguração do poço, quando Daniel ameaçou Abel Sunday (David Willis), pois soube por HW que Mary sofria espancamentos por parte do pai. Em homenagem a menina, Daniel usou seu nome para batizar o poço. Uma clara demonstração de afeto pelas crianças.

O petróleo é mais um dos grandes símbolos da história. Plainview, por vezes, está sujo com o líquido, como se ele fosse feito dele. O petróleo move Plainview e move o mundo. Mortes? É só parte do percurso. No acidente com gás que afetou HW, Daniel parecia estar hipnotizado pela fúria da natureza. Enquanto os funcionários corriam desesperados, Plainview ria, com uma felicidade gananciosa, pois sabia que estava sob um mar de petróleo.

A solidão parece ser o destino de Daniel Plainview e ele não fez questão nenhuma de mudá-lo. O final do personagem é uma representação de que o dinheiro não supre todas as carências de alguém, pois ele concretiza seu sonho de se afastar de todos e se isola em sua enorme mansão, mas seus dias são dedicados à melancolia e a bebida. Ele sente uma constante falta de algo, que não é o dinheiro, e compete com tudo e todos para suprir essa necessidade. O problema de Daniel foi não ter reconhecido um sentimento instintivo dos humanos, que é o mesmo de todas as pessoas do mundo (inclusive as mais competidoras): amar e ser amado. Por vezes comparado com Charles Foster Kane (Orson Welles, em “Cidadão Kane”), Daniel também precisa de sua “Rosebud”. No caso dele, uma família.

Imagem: Rodrigo Oliveira.

Imagem: Rodrigo Oliveira.

OBS: A numeração no canto superior da cartinha refere-se a classificação do personagem de acordo com as categorias: (No personagem de hoje, a identificação da cartinha é B1)

A – Mulheres em filmes live-action;

B – Homens em filmes live-action;

C – Homens ou mulheres em animação 3D ou desenho animado;

D – Crianças e adolescentes (até 18 anos aproximadamente) de qualquer sexo, em qualquer meio;

E – Animais (inclusive insetos e aracnídeos) em filmes live-action, animação 3D ou desenho animado;

F – Monstros, fantasmas, extraterrestres e robôs em qualquer meio;

G – Objetos, plantas, partes do corpo, seres encantados, seres fantásticos, localidades, comidas, bactérias, vírus e demais seres não especificados e que não se encaixam em outras categorias.

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