Meu conto na Bang Literário #4

Olá, pessoal!

Não sei se todos sabem, mas além de jornalista e estudante de produção editorial, eu tenho um lado literário. Sim, sou contista. Tenho me voltado muito para esse lado nos últimos tempos. Especialmente, porque o trabalho de editora na Revista Cornucopia Vacua me deixa muito inspirada. Já dei um reblog por aqui em um post do meu novo blog. O Obscurecer tem como objetivo aglutinar algumas das minhas produções literárias. Acessem para ler mais: https://obscurecer.wordpress.com/

Então, resolvi trazer um conto meu pra vocês e já falar sobre minha participação na Revista Bang Literário. A Bang é uma revista que aceita trabalhos de escritores e ilustradores. É produzida por ex-colegas meus da produção editorial. Vi o edital aberto pro #4 e enviei um conto. Fui selecionada e fiquei super feliz e na expectativa de ver a revista impressa.

O lançamento foi no final do ano passado, 13 de dezembro, junto com um baita evento literário. Teve conversa sobre Lovecraft, lançamento de livros e até a CV#1. 😀 Leia mais da cobertura do lançamento aqui.

2015.0513_Esta não é uma carta de despedida_Revista Bang Literário11

Quem ilustrou belamente o meu conto foi o Marcel Ibaldo. Ele é quadrinhista e multi-funções. Fiquei muito emocionada em ter um personagem ilustrado. Foi a primeira vez e isso é inesquecível. Vou deixar uma ilustração dele com as cores originais pra vocês terem uma palhinha. Podem ver mais no link: http://idade200.blogspot.com.br/2015/01/ilustracoes-pra-revista-bang-literario.html Veja mais ilustrações de Marcel Ibaldo no seu blog pessoal: http://idade200.blogspot.com.br/

2015.0513_Esta não é uma carta de despedida_Revista Bang Literário10

Tem uma galeria com mais fotos da revista no final do post.

Boa leitura. 😉

Publicação de origem: Revista Bang Literário #4

Editora responsável: https://www.facebook.com/eloeditorial?fref=ts

Aliás, o pessoal da Elo está recebendo materiais para a Bang #5. Fiquem ligados.

 *Este conto faz parte da Revista Bang Literário #04.

Esta não é uma carta de despedida

Por Luciana Minuzzi

Dizem que o Sol anima.

Se ao menos eu conseguisse abrir essa merda de janela, talvez eu não sentisse essa coisa ruim. É uma veneziana. Tem algumas placas de madeira faltando, então eu posso espiar para fora. Vejo um mundo do qual não quero mais fazer parte. Eu li por aí que os olhos são a janela da alma. Os meus devem mostrar o mesmo que esta janela: caos e solidão. Vou apodrecer neste quarto. Igual à janela.

Se não fosse pela Dona Zélia, já teria ido embora. Ela me faz um preço bom pra ficar aqui, e sempre me traz um prato de comida. Imagino que a minha mãe seria bem como ela, se ainda fosse viva: com a cabeça toda branca e um xale jogado por cima dos ombros, não importa o tempo lá fora. O Seu Augusto, marido da Dona Zélia, é meu fã. Por isso ela me dá essa moral. Ele não sai da cama faz uns anos e é um dos poucos que eu gosto de conversar.

“Pega aquela fita número nove. Tem aquela luta tua contra aquele alemão.”

Passamos horas vendo lutas minhas na televisão de tubo que nem tem mais todos os botões. A cada fita, eu me lembro de como consegui cada cicatriz. Umas lutas marcam por fora. Outras, por dentro. Essas marcas são os únicos prêmios que me restaram. As medalhas, troféus e cinturões eu vendi por aí. É impressionante como se pode vender tudo, hoje em dia.

Eu mal me reconheço na tela. Essa pele caída do meu braço nunca derrubaria alguém no primeiro round como eu tanto fiz, na minha época. O meu rosto flácido não ficaria tão bem nas câmeras. Nem tenho mais essa sede de fama, bajulação e mulheres. As mulheres… Tive de todos os tipos. Hoje, o máximo de contato físico que consigo é um esbarrão no metrô. Elas se assustam com a minha cara toda costurada.

Não quero que essa carta seja de chorumela, mas preciso tirar o que sinto aqui de dentro. Eu cheguei ao ápice e vivi o que muitos homens desejam viver. Vou sair da vida porque conheci o sucesso e a desgraça.

Aquela luta, em 97, me tirou para sempre dos ringues. A minha queda foi brusca. De uma hora pra outra, perdi tudo e todos. Sobrou só algum dinheiro para eu levar uma vida modesta. Esse dinheiro rendeu porque meu pai trabalhava com finanças e me ajudou a aplicar, na época.

Aliás, tem algo que não contei para a minha mãe: eu vi o meu velho chorar. Foi uma única vez. Ele estava bem debilitado no hospital fazia uns meses. Ele sabia que ia morrer, e nunca vi ninguém mais desesperado com essa realidade. Meu pai teve tanto tempo para se preparar, mas não conseguiu suportar a situação. Ele deu os últimos soluços e as únicas lágrimas que o vi derramar na vida na minha frente. O pavor era tanto que ele nem parecia o mesmo que cresceu me dizendo: “Engole o choro, guri.”. Tenho medo de fazer o mesmo papelão quando chegar a minha hora. E será logo.

Quando o dinheiro que meu pai me ajudou a aplicar começou a ficar escasso, tive a ajuda do Roger, um amigo dos tempos do boxe. Eu fazia uns bicos na academia dele. Era bom ficar invisível atrás da vassoura, só olhando uma garotada aprendendo as primeiras táticas de esquiva. “Tu tem que dar aula, meu amigo”, dizia o Roger. Minhas costas não me deixavam fazer mais do que observar e torcer pra eles não virarem um desgraçado como eu.

Como tinha bastante tempo livre, eu andava muito pela cidade. E vi muita coisa ruim. Crianças se drogando em plena tarde, mulheres jovens se prostituindo em troca de moedas, gente sendo tratada como bicho, descaso e desamor por todos os lados. Eu achava que tinha visto os maiores golpes no ringue, mas não eram nada perto das rasteiras que a vida dá nessa gente. Procurei a religião, mas quem diz que as portas das igrejas estão sempre abertas é um mentiroso. Encontrei meu conforto nas páginas dos livros.

Sempre me diziam que boxeadores ficavam burros, de tanto levar pancada na cabeça. Eu nem levei muitas. Era o melhor na defesa. Mesmo assim, quando vi um grupo de universitários, tão jovens e contentes, entrar em uma biblioteca, resolvi os seguir e ver o que tinha de bom por lá.

Comecei lendo os jornais do dia. Fazia algumas palavras-cruzadas, conversava com os atendentes, anotava alguma expressão que eu não conhecia e ia pra pensão. Virou um hábito. De lá pra cá, li boa parte dos livros da seção de romance e aprendi 237 palavras novas, que anotei em um caderno.

Também aprendi a mexer no computador. Até encontrei um site sobre mim. Quem sabe, eles não colocam esta carta lá. Tem várias palavras do meu caderno que aprendi online, inclusive. Foi em um fórum que encontrei informação sobre os remédios que preciso tomar pra sair desse mundo. Já tentei isso antes. Dormi três dias e acordei com a maior ressaca da minha vida. Agora, não tem chance de dar errado. Eu pesquisei bastante.

Essa carta não é para me lamentar ou me despedir. É só para justificar para a Dona Zélia porque tem um corpo azul e gelado em um dos quartos dela.

Não tem mais nada que eu ainda queira fazer. Meus trocados estão acabando e não tenho vontade alguma de continuar lutando. E, quando escrevo “lutar”, me refiro à luta diária de correr atrás de emprego. Quem me dera nocautear um filho da puta antes de ir.

Vou tomar os remédios.

Não me esqueço daquela reportagem falando sobre o poder da luz do Sol para pessoas depressivas. Não sei se posso dizer que tenho depressão, mas eu queria que o Sol me curasse. De uma hora pra outra, um raio de luz atravessasse meu peito e me inflasse de esperança, de vontade. Queria poder tentar isso antes de partir. Os comprimidos estão agindo, mas consigo chegar até a janela. Preciso abrir essa droga. É a minha última chance. Vou usar o que me resta de forças e dar o meu melhor cruzado nessa maldita.

Deu certo.

É a melhor visão do dia mais cinzento que essa cidade já teve.

P.S.: Dona Zélia ouviu o barulho da janela e veio aqui. Eu estava olhando para a janela e cai desmaiado. Fiquei uns dias no hospital e voltei pra cá. Ela acha que eu passei mal, não leu essa carta. Disse que se algo acontecesse comigo, ela não saberia o que fazer, que sou como um filho pra ela. Pensei melhor e tenho muita coisa pra fazer, aqui. Tem vários livros que ainda não li na biblioteca, e soube que estão precisando de um ajudante. Fora que… Eu preciso consertar essa janela. Aliás, fez Sol hoje.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s